Sobreviva às suas condições (texto completo)

O ego fica no centro da zona de conforto. Lembro do Karnal falando sobre a importância de ir além desta zona. Isto, aliás, já é quase senso comum. Ouvimos coachs falando disso. Ouvimos posts no Facebook falando disso. Mas será realmente que é algo assim tão fácil? Creio que não. Vivemos nessa zona de conforto tão previsivelmente que é raro conseguir cumprir a afirmação de não ficar preso a ela. Como disse Karnal, nossa zona de conforto inclui nossa poltrona favorita, restaurante favorito, pessoas favoritas, enfim, hábitos favoritos. Quem pode, ou mesmo, quer fugir a isso? Na minha visão, o que ocorre de fato é que às vezes somos forçados a sair desta zona, ou melhor, somos empurrados para fora dela pelos acontecimentos que nos roubam nossa poltrona, restaurante e pessoas. O que faz a diferença neste momento é justo a capacidade de atravessar essa zona de desconforto --- o que é quase um eufemismo considerando os possíveis desastres que podem sobrevir a nós e que tornam os acontecimentos em traumas, ou seja, algo bem mais desastroso que a palavra “desconforto” pode sugerir. Mas como atravessar essas crises com a maior dignidade possível? Isso incluiria por exemplo, evitar (repito evitar, pois é certo que vai acontecer) reclamar e se lamentar. Essas são reações quase que inevitáveis e perfeitamente aceitáveis. O problema reside quando o reclamar e o lamentar se tornam um padrão, uma afirmação para si mesmo de que algo irreparável aconteceu, algo cuja ação não lhe permitirá, novamente, ser inteiro e pleno. Creio que a depressão, em parte, pode ser explicada por essa insistência na derrota como certa, no lamento como seu carro-chefe. Atravessar com dignidade ou melhor, com a maior sensibilidade e com a devida atenção que o momento requer, é saber acolhê-lo; viver as emoções que ele evoca; se tornar mesmo essas emoções que passarão a fazer parte de você. Não como um lamento ou uma derrota, mas como um aspecto essencial da vida, a capacidade de atravessar momentos tortuosos permitindo, numa dança sutil de auto-conhecimento, que eles desenhem um novo trajeto no seu ser. Lembrei do filme “Divertidamente”, naquela dicotomia entre a alegria e tristeza e o final que traz uma síntese entre estes opostos, junto do amadurecimento e da reconciliação entre o que antes era mera oposição.

Sobreviva às suas condições, quer dizer, seja capaz de ir além daquilo que considera necessário para manter sua vontade de viver. Dificilmente será dramático assim (e esperamos que nunca seja pois sabemos como a vida pode ser cruel ) mas por vezes nos veremos forçados a passar por um processo, digamos, na falta de palavra melhor, um processo de readaptação. Porque é sempre mais que isso, sempre mais do que se readaptar. Aliás essa palavra é perigosa pois reforça justamente o cerne do problema, o anseio de ego de estar adaptado, de estar localizado, seguro e previsivelmente satisfeito. Faça um exercício simples, imagine você vivendo em condições inóspitas, qual será seu único anseio se não a sobrevivência? Estamos longe disso, estamos rodeados por uma série de promessas de satisfação e possibilidades que a enorme quantidade de informação, disponível a um clique, nos inunda diariamente. As redes sociais, então, criaram um nicho especial de desejos e ambições e comparações. Mas estamos falando aqui com aqueles que percebem a armadilha de se deixar levar pela corrente do social. A esses poderemos talvez colocar o desafio ou ao menos o exercício existencial, sobreviveríamos às nossas condições? Sobreviveríamos a ausência daquelas exigências de satisfação que delimitam nosso ânimo e nos motivam? Sempre me pareceu que a vontade de viver fica aí realçada por contraste. Explico: sua vontade de viver, seu amor pela vida é algo real em si mesmo? É algo que sobrevive às suas condições? Lembro de uma mulher que perdeu tudo numa enchente, mas estava ainda assim radiante, pois não perdeu a vida, porque SOBREVIVEU. Aquela radiância reluz mais do que qualquer ouro se você sabe o que realmente tem valor. O que ela tinha ali, forte como nunca, era sua vontade de viver, de seguir em frente apesar de tudo que havia perdido. Sobreviva as suas condições...tenha em você mesmo, a chama da vida!

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